Já dizia Quintana: a mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer
(Coluna publicada originalmente junto ao Think Work Lab no dia 21 de julho de 2025)
Algumas semanas separam as histórias de duas jovens. Uma, mineira, seria astronauta. A outra, goiana, tornou-se a primeira brasileira a receber o Sophia Freund Prize em Harvard.
O que as diferencia? De modo simplista, a primeira ganhou espaço graças à narrativa e fake news. Já a segunda, com uma conquista real, não recebeu o mesmo destaque nas redes regidas por algoritmos repetitivos. Talvez sequer tenha sido notada.
Ampliando o foco, esse recorte revela aspectos do cenário social contemporâneo. Já faz um tempo, lorotas no currículo se converteram em mentiras no LinkedIn. Uma foto em frente à ONU acompanhada de um texto inspiracional sobre conflitos no Oriente Médio ou crises climáticas é suficiente para gerar centenas, ou até milhares, de reações, compartilhamentos e notoriedade. Mesmo sem qualquer realização concreta, apenas verborragia.
A busca por relevância algorítmica chegou à “rede profissional”, até então considerada blindada contra a bulshiteria existente em outras distribuidoras de dopamina pobre, mas de alto impacto anestesiante.
Na minha bolha, não vi uma linha sequer sobre Sarah Borges, recém-admitida no doutorado em Cambridge, no Reino Unido, após ter sido bolsista e ter ralado muito para que Harvard, uma das principais instituições de ensino do planeta, lhe conferisse uma distinção singular na história de nosso jovem país.
Por outro lado, o caso da autodeclarada astronauta seguiu outro rumo. Aliás, logo após ser descoberta quanto a sua pós-verdade, tentou revestir a sua “mentirinha” como experimento social. Dada a velocidade de propagação de sua história, talvez tenha sido mesmo.
Sarah, sem o reconhecimento merecido no país, em entrevista ao jornal O Globo, mencionou várias vezes a jornada da irmã gêmea – curiosamente chamada Sophia, como o prêmio –, que cursa Medicina na USP e faz doutorado em Harvard, graças a uma vaquinha online que viabiliza seus estudos.
Ao compartilhar sua visibilidade com a irmã, num gesto que carrega sororidade, Sarah também seguiu exatamente o que a gênese da lamentavelmente esvaziada agenda de DE&I esperava das pessoas que “chegavam lá”: alcançar destaque e trazer consigo quem enfrenta vulnerabilidades semelhantes.
Todos os dias, pessoas como ela levantam a bandeira do país em espaços de excelência. Nem todos têm seguidores suficientes para domesticar algoritmos. Ou talvez, o mais triste, é que suas conquistas não empolgue olhares diante do “espelho negro na palma da mão”. Este não revela que, para ser verdadeiramente relevante, é preciso trilhar o caminho completo, sem atalhos. Uma verdade difícil de encarar, especialmente no LinkedIn.
Os dois casos me levam a outra reflexão. Num país, onde apenas 18,4% da população com mais de 25 anos têm formação superior e ínfimos 0,8% concluíram mestrado (Censo de 2022), precisamos parar de dizer que o ensino universitário deixou de ser necessário.
Acredito que tal discurso nasce de uma interpretação equivocada. SxSW, Vale do Silício, Israel, Portugal e China, celeiros da disrupção radical, nunca afirmaram textualmente que estudar não importa. O que apontaram é que deixou de ser relevante no que a pessoa se formou, frente à capacidade crítica e à aprendizagem contínua. Além disso, o que foi dito tem muito mais a ver com áreas como a programação, considerando que a universidade não produz profissionais de TI em compatibilidade com o nível da demanda vinda do segmento.
No Brasil, o hype panfletário absorveu essa ideia de forma equivocada e jovens “nem-nem” (nem estuda, nem trabalha) passaram a acreditar que estudar é desperdício, já que é possível enriquecer nas redes sociais.
Fazendo um paralelo, a tradução à brasileira nesse caso foi similar a dos anos 1960, quando em meio ao flower power americano, mergulhado em anos de chumbo, o país abraçou somente o “power” dos alucinógenos processados. O “flower” da liberdade, não chegou até aqui.
Comparado a outros países, o Brasil tem um déficit enorme na formação de médicos e engenheiros e pesquisadores. Estes, quando diante de algo que poderia posicionar o país na vanguarda da ciência, optam por ir para o estrangeiro em busca de recursos e de seriedade institucional.
A pergunta que se impõe é inquietante: seria o momento de travarmos a evolução acadêmica no Brasil? Ou, ao contrário, devemos encarar a urgência dos tempos, que exigem a habilidade de formular perguntas profundas?
Pensadores da evolução da inteligência artificial (IA) afirmam que nunca se precisou tanto da capacidade filosófica, analítica, antropológica do ser humano para lidar com a complexidade. O privilégio de se emocionar com o belo ao ler um poema, encher os pulmões de ar para escutar atentamente uma melodia densa como Eleanor Rigby ou mesmo se reconhecer em uma obra de Almodóvar não é replicável, e nem deveria ser. Mas se perde na tentativa de buscar um atalho, como decorar prompts.
Nesse contexto, preciso falar sobre Recursos Humanos. Costumo dizer que o que extinguirá o RH não é a IA, mas os memes proliferados sobre a nossa atuação, que zombam do que fazemos, ao mesmo tempo em que denunciam a perda de relevância acelerada da área. E isso justamente em tempos que pedem o enaltecimento do valor do humano. O fechamento dessa abóbada? O impulso que damos a quem mente nas redes e a invisibilidade de quem poderia enriquecer nosso ecossistema profissional.
A astronauta atingiu seu objetivo, teve “cinco minutos de fama”, como previu Andy Warhol. Aliás, sua maior mostra fora dos EUA está em cartaz em São Paulo. Justo Warhol, que ilustra a verdadeira contracultura tentada por muitos dos tidos como “influencers”, não tem atraído público como se espera. Se soubéssemos que, antes de tentar ser contracultura, é preciso necessariamente ter cultura, lotaríamos o espaço para apreciar suas nuvens de prata e desacelerar, ainda que brevemente, neste mundo em rotação frenética, que despreza a checagem de fatos e se encanta com a inverdade.
O momento exige desafiarmos o haikai sublime do poeta – meu conterrâneo idolatrado – Mário Quintana, de quem tomei emprestada a frase que dá título a este ensaio: “a mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer”. Talvez, se nossos olhos se voltassem para textos como os dele, a oportunidade de aplauso para aquilo que nunca existiu passaria despercebida.
Futuro da Diversidade, Equidade e Inclusão nas Organizações
(Coluna publicada originalmente junto ao Think Work Lab no dia 21 de julho de 2025)
Algumas semanas separam as histórias de duas jovens. Uma, mineira, seria astronauta. A outra, goiana, tornou-se a primeira brasileira a receber o Sophia Freund Prize em Harvard.
O que as diferencia? De modo simplista, a primeira ganhou espaço graças à narrativa e fake news. Já a segunda, com uma conquista real, não recebeu o mesmo destaque nas redes regidas por algoritmos repetitivos. Talvez sequer tenha sido notada.
Ampliando o foco, esse recorte revela aspectos do cenário social contemporâneo. Já faz um tempo, lorotas no currículo se converteram em mentiras no LinkedIn. Uma foto em frente à ONU acompanhada de um texto inspiracional sobre conflitos no Oriente Médio ou crises climáticas é suficiente para gerar centenas, ou até milhares, de reações, compartilhamentos e notoriedade. Mesmo sem qualquer realização concreta, apenas verborragia.
A busca por relevância algorítmica chegou à “rede profissional”, até então considerada blindada contra a bulshiteria existente em outras distribuidoras de dopamina pobre, mas de alto impacto anestesiante.
Na minha bolha, não vi uma linha sequer sobre Sarah Borges, recém-admitida no doutorado em Cambridge, no Reino Unido, após ter sido bolsista e ter ralado muito para que Harvard, uma das principais instituições de ensino do planeta, lhe conferisse uma distinção singular na história de nosso jovem país.
Por outro lado, o caso da autodeclarada astronauta seguiu outro rumo. Aliás, logo após ser descoberta quanto a sua pós-verdade, tentou revestir a sua “mentirinha” como experimento social. Dada a velocidade de propagação de sua história, talvez tenha sido mesmo.
Sarah, sem o reconhecimento merecido no país, em entrevista ao jornal O Globo, mencionou várias vezes a jornada da irmã gêmea – curiosamente chamada Sophia, como o prêmio –, que cursa Medicina na USP e faz doutorado em Harvard, graças a uma vaquinha online que viabiliza seus estudos.
Ao compartilhar sua visibilidade com a irmã, num gesto que carrega sororidade, Sarah também seguiu exatamente o que a gênese da lamentavelmente esvaziada agenda de DE&I esperava das pessoas que “chegavam lá”: alcançar destaque e trazer consigo quem enfrenta vulnerabilidades semelhantes.
Todos os dias, pessoas como ela levantam a bandeira do país em espaços de excelência. Nem todos têm seguidores suficientes para domesticar algoritmos. Ou talvez, o mais triste, é que suas conquistas não empolgue olhares diante do “espelho negro na palma da mão”. Este não revela que, para ser verdadeiramente relevante, é preciso trilhar o caminho completo, sem atalhos. Uma verdade difícil de encarar, especialmente no LinkedIn.
Os dois casos me levam a outra reflexão. Num país, onde apenas 18,4% da população com mais de 25 anos têm formação superior e ínfimos 0,8% concluíram mestrado (Censo de 2022), precisamos parar de dizer que o ensino universitário deixou de ser necessário.
Acredito que tal discurso nasce de uma interpretação equivocada. SxSW, Vale do Silício, Israel, Portugal e China, celeiros da disrupção radical, nunca afirmaram textualmente que estudar não importa. O que apontaram é que deixou de ser relevante no que a pessoa se formou, frente à capacidade crítica e à aprendizagem contínua. Além disso, o que foi dito tem muito mais a ver com áreas como a programação, considerando que a universidade não produz profissionais de TI em compatibilidade com o nível da demanda vinda do segmento.
No Brasil, o hype panfletário absorveu essa ideia de forma equivocada e jovens “nem-nem” (nem estuda, nem trabalha) passaram a acreditar que estudar é desperdício, já que é possível enriquecer nas redes sociais.
Fazendo um paralelo, a tradução à brasileira nesse caso foi similar a dos anos 1960, quando em meio ao flower power americano, mergulhado em anos de chumbo, o país abraçou somente o “power” dos alucinógenos processados. O “flower” da liberdade, não chegou até aqui.
Comparado a outros países, o Brasil tem um déficit enorme na formação de médicos e engenheiros e pesquisadores. Estes, quando diante de algo que poderia posicionar o país na vanguarda da ciência, optam por ir para o estrangeiro em busca de recursos e de seriedade institucional.
A pergunta que se impõe é inquietante: seria o momento de travarmos a evolução acadêmica no Brasil? Ou, ao contrário, devemos encarar a urgência dos tempos, que exigem a habilidade de formular perguntas profundas?
Pensadores da evolução da inteligência artificial (IA) afirmam que nunca se precisou tanto da capacidade filosófica, analítica, antropológica do ser humano para lidar com a complexidade. O privilégio de se emocionar com o belo ao ler um poema, encher os pulmões de ar para escutar atentamente uma melodia densa como Eleanor Rigby ou mesmo se reconhecer em uma obra de Almodóvar não é replicável, e nem deveria ser. Mas se perde na tentativa de buscar um atalho, como decorar prompts.
Nesse contexto, preciso falar sobre Recursos Humanos. Costumo dizer que o que extinguirá o RH não é a IA, mas os memes proliferados sobre a nossa atuação, que zombam do que fazemos, ao mesmo tempo em que denunciam a perda de relevância acelerada da área. E isso justamente em tempos que pedem o enaltecimento do valor do humano. O fechamento dessa abóbada? O impulso que damos a quem mente nas redes e a invisibilidade de quem poderia enriquecer nosso ecossistema profissional.
A astronauta atingiu seu objetivo, teve “cinco minutos de fama”, como previu Andy Warhol. Aliás, sua maior mostra fora dos EUA está em cartaz em São Paulo. Justo Warhol, que ilustra a verdadeira contracultura tentada por muitos dos tidos como “influencers”, não tem atraído público como se espera. Se soubéssemos que, antes de tentar ser contracultura, é preciso necessariamente ter cultura, lotaríamos o espaço para apreciar suas nuvens de prata e desacelerar, ainda que brevemente, neste mundo em rotação frenética, que despreza a checagem de fatos e se encanta com a inverdade.
O momento exige desafiarmos o haikai sublime do poeta – meu conterrâneo idolatrado – Mário Quintana, de quem tomei emprestada a frase que dá título a este ensaio: “a mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer”. Talvez, se nossos olhos se voltassem para textos como os dele, a oportunidade de aplauso para aquilo que nunca existiu passaria despercebida.